“Disparada” conta a história de um boiadeiro-cavaleiro-cantador que avisa de antemão que pode ser desagradável na narrativa das agruras por que passou. Informa ao leitor de onde veio. Anuncia de modo messiânico a sua missão: “a morte o destino tudo/ estavam fora de lugar/eu vivo pra consertar”.
Afirma que já foi manipulado, conduzido, guiado. O termo ‘boi’ do verso “Na boiada já fui boi” exprime essa certeza. Revela-nos a posição de submissão do sujeito chegando a ponto de desumanizar-se, tornar-se ‘boi’[1], de perder a sua identidade social. Mas devido à morte de um vaqueiro (ou seja, a uma situação casual e não construída pelo sujeito) adquiriu uma profissão. Por muito tempo, “laçou” gado e também pessoas, pensava que ser boiadeiro era tudo, afinal para ele, o salto de ‘boi’(de um ser dominado) para ‘boiadeiro’ (alguém que, de alguma forma, tem o comando) era alto.
O narrador ressalta suas características de bom boiadeiro – “laço firme, braço forte”, a ponto de comparar-se a rei. Mas seus sonhos foram se tornando mais claros, conscientes. A ponto de o despertarem para a realidade de injustiça em que vivia. A realidade de desmandos do coronelismo a que se submetia. A tomada de consciência o fez desistir daquele modo de vida:
“porque gado a gente marca
tange ferra engorda e mata
mas com gente é diferente”
Destaca-se a figura de linguagem gradação no trato do boiadeiro com o gado: “tange ferra engorda e mata”. Por sinal, esse trecho – clímax da música – é o momento que o intérprete ‘levanta’ o público ouvinte, é a adesão da platéia à letra de Vandré.
0 sujeito de “Disparada” tornou-se violeiro, cujo canto, segundo o próprio cantor, é verdadeiro, porém dependente da concordância do ouvinte para que haja continuidade. Se não ocorrer a sintonia entre o artista e o público, a solução oferecida pelo narrador-cavaleiro-cantador é interromper o canto e procurar outro ouvinte. Segundo Walnice Nogueira Galvão, tal recurso fará com que o ouvinte, pelo contrário continue a ouvir a moda de viola, pois assegura “a cumplicidade entre autor e público (...) E o autor passa por ser valente e corajoso, porque ousa cantar coisas que desagradam a muita gente.” (Galvão : 1976 : 110)
No final da moda de viola, o narrador resume sua trajetória de “boi” e “boiadeiro-rei” a homem livre, independente, “no reino que não tem rei”.
Nessa moda de viola, liberada pela Censura, sem causar problemas a seus autores, exceto pelo fato de que Geraldo Vandré não poderia interpretá-la, é enfatizado o problema da manipulação, de não ter vontade própria: “Ser gado”, “ser boi” e a necessidade de despertar disso. Uma das palavras-chave do momento combativo anterior ao golpe militar é “conscientização”. Vandré, na letra, retoma esse discurso para que seu ouvinte acredite no seu canto (pré-requisito) e faça dele motivo para agir e tomar uma posição frente à realidade em que vive.
As características desejáveis para ser um bom boiadeiro podem ser finalmente utilizadas para construir um ‘reino’ sem a figura do poder, representada no ‘rei’, na tirania, no autoritarismo.
extraído da obra Músicas de Festivais
[1] Mesmo considerando-se o sentido de “boi” no linguajar dos vaqueiros persiste a idéia de inferioridade e quase desumanização já que “boi” seria o vaqueiro que segue a pé, fechando a comitiva, quase se confundindo com a boiada.
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