segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

CONVIVER É UMA ARTE

CONVIVER É UMA ARTE


José Ricardo da Penha Vieira



Como é que podemos compreender e vivenciar com verdadeira intensidade a arte de conviver? Como é que podemos fazê-lo em meio a toda diversidade de ações e opiniões que nos cerca.
Se nos foi dado o dom de saber discernir o que é o bem e o que é o mal, por que seus limites sempre entram em conflito quando tentamos executar essa tão necessária, porém difícil, arte?
O que é o ser paciente quando estamos tomados pela amargura? O que é o ser gentil, quando estamos revoltados com toda injustiça que envolve o mundo? Porém, o que é a estupidez se temos o amor a ser cultivado dentro de nós...
Todas as relações humanas são baseadas no convívio entre as pessoas, seja direto – através de uma conversa (O homem é um ser que conversa. Conversa sozinho,  com animais, com plantas, com outras pessoas ou até com Deus.) ou indireto – através de informações transmitidas pela televisão ou um livro, por exemplo.
Isso é possível  a partir do momento em que o convívio entre personagens de uma história são interpretados  como verdadeiras relações. Os romances são perfeitos para essa análise, uma vez que um bom autor consegue entrar na mente das personagens e expor seus sentimentos, pensamentos, sonhos para deixar o mais claro possível a convivência entre esses seres fictícios.
No romance de Lima Barreto,  Triste fim de Policarpo Quaresma, a personagem principal a princípio aparece como um homem de quem não devemos esperar nenhuma sociabilidade, um solitário por natureza; mas depois de lido o livro, encontramos um Policarpo cheio de sonhos, esperança e inteligência que nos serve de modelo em nossas próprias relações e nos ensina, assim, a conviver.



Cada um tem suas idéias e com estas, procura pessoas  afins, para que aflore uma relação. Porém idéias contrárias também aproximam pessoas e fazem com que essas se relacionem. Cada um tem o seu jeito próprio de se expor, existem aqueles que são muito tímidos e que gostam de apenas ouvir, já há aqueles que adoram se expor, que possuem mais desenvoltura.  No romance  São Bernardo  de Graciliano Ramos, temos o exemplo da relação entre o protagonista Paulo Honório e sua esposa Madalena. Paulo não demonstrava o amor que sentia por Madalena, tinha muito ciúme dela e isso a castigava. No final, com toda a sua arrogância, fica só e velho. Mesmo sendo diferentes, se houvesse a compreensão e a possibilidade de mudança na personalidade do narrador- personagem, a história poderia ter um fim mais salutar, todavia o próprio Paulo diz que se tivesse que voltar no tempo, tudo seria como foi.
Diariamente, vemos rivalidades, um que quer ser melhor que o outro em tudo o que for possível. Vivenciamos o ataque sofrido pelos Estados Unidos, pela Espanha ou Inglaterra,  em que pessoas inocentes foram mortas sem que se soubessem o porquê. Os conflitos no Oriente Médio podem ser a razão para tanto. Por que judeus e árabes não convivem pacificamente? Por que tribos são escravizadas por outras na África?  Por que os ciganos e outras minorias são varridos da Europa?
Por que será que não conseguimos conviver sem a tal da ‘violência’?
Precisamos tentar – de todas as formas – acabar com isso. A maneira mais simples é ser solidário, amigo, compreensivo e por que mesmo assim, não conseguimos nos conviver?
Porque até hoje, século XXI, ninguém entendeu o significado da palavra ‘convivência’.












Cores de um viver
Conviver
Ver

Ver no mundo de hoje
Sem diferença
De raça, credo, poder.

Somos iguais
No corpo,
Na mente.
Na vida, apenas rumos diferentes.
Alegrias. Felicidades.
Somos iguais
A ponto de pensar
Em um dia viver melhor.

Conviver
Ver
melhor

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Disparada

 “Disparada” conta a história de um boiadeiro-cavaleiro-cantador que avisa de antemão que pode ser desagradável na narrativa das agruras por que passou. Informa ao leitor de onde veio. Anuncia de modo messiânico a sua missão: “a morte o destino tudo/ estavam fora de lugar/eu vivo pra consertar”.
Afirma que já foi manipulado, conduzido, guiado. O termo ‘boi’ do verso “Na boiada já fui boi” exprime essa certeza. Revela-nos a posição de submissão do sujeito chegando a ponto de desumanizar-se, tornar-se ‘boi’[1], de perder a sua identidade social. Mas devido à morte de um vaqueiro (ou seja, a uma situação casual e não construída pelo sujeito) adquiriu uma profissão. Por muito tempo, “laçou” gado e também pessoas, pensava que ser boiadeiro era tudo, afinal para ele, o salto de ‘boi’(de um ser dominado) para ‘boiadeiro’ (alguém que, de alguma forma, tem o comando) era alto.
O narrador ressalta suas características de bom boiadeiro – “laço firme, braço forte”, a ponto de comparar-se a rei. Mas seus sonhos foram se tornando mais claros, conscientes. A ponto de o despertarem para a realidade de injustiça em que vivia. A realidade de desmandos do coronelismo a que se  submetia. A tomada de consciência o fez desistir daquele modo de vida:
“porque gado a gente marca
tange ferra engorda e mata
mas com gente é diferente”
Destaca-se a figura de linguagem  gradação no trato do boiadeiro com o gado: “tange ferra engorda e mata”. Por sinal, esse trecho – clímax da música – é o momento que o intérprete ‘levanta’ o público ouvinte, é a adesão da platéia à letra de Vandré.
0 sujeito de “Disparada” tornou-se violeiro, cujo canto, segundo o próprio cantor, é verdadeiro, porém  dependente da concordância do ouvinte para que haja continuidade. Se não ocorrer a sintonia entre o artista e o público, a solução oferecida pelo narrador-cavaleiro-cantador é interromper o canto e procurar outro ouvinte. Segundo Walnice Nogueira Galvão, tal recurso fará com que o ouvinte, pelo contrário continue a ouvir a moda de viola, pois assegura “a cumplicidade entre autor e público (...) E o autor passa por ser valente e corajoso, porque ousa cantar coisas que desagradam a muita gente.” (Galvão : 1976 : 110)
No final da moda de viola, o narrador resume sua trajetória de “boi” e “boiadeiro-rei” a homem livre, independente, “no reino que não tem rei”.
Nessa moda de viola, liberada pela Censura, sem causar problemas a seus autores, exceto pelo fato de que Geraldo Vandré não poderia interpretá-la, é enfatizado o problema da manipulação, de não ter vontade própria: “Ser gado”, “ser boi” e a necessidade de despertar disso.  Uma das palavras-chave do momento combativo anterior ao golpe militar é “conscientização”. Vandré, na letra, retoma esse discurso para que seu ouvinte acredite no seu canto (pré-requisito) e faça dele motivo para agir e tomar uma posição frente à realidade em que vive.
As características desejáveis para ser um bom boiadeiro podem ser finalmente utilizadas para construir um ‘reino’ sem a figura do poder, representada no ‘rei’, na tirania, no autoritarismo.

extraído da obra Músicas de Festivais


[1] Mesmo considerando-se o sentido de “boi” no linguajar dos vaqueiros persiste a idéia de inferioridade e quase desumanização já que “boi” seria o vaqueiro que segue a pé, fechando a comitiva, quase se confundindo com a boiada.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

músicas de festivais


Musicas De Festivais




O livro analisa canções inseridas em uma época para as manifestações estéticas no Brasil. As canções fizeram parte dos Festivais de Música Popular Brasileira promovidos pelas Redes de Televisão Excelsior e Record, como também o Festival Internacional da Canção, realizado pela Secretaria de Turismo do Estado da Guanabara, no período 1965-1969. José Ricardo Penha além de apresentar discussões sobre as canções apresentadas nos festivais rotuladas como 'músicas de protesto', 'músicas engajadas', 'músicas de festivais', aponta para outras canções participantes desses eventos e que podem ser classificadas com outros rótulos.